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A bala que matou Luís Grilo

Publicado por Vítor Santos em 29 de Outubro de 2018 | 15:59

Testemunho do filho de Luís e Rosa Grilo deita por terra a teoria da mãe. A bala que matou o triatleta tem assinatura própria

Rosa Grilo

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A Polícia Judiciária (PJ) acredita ter os homicidas de Luís Grilo nas mãos: a bala que o matou tem ‘assinatura’ própria. Além disso, o filho do triatleta, de apenas 12 anos, reconheceu o edredão em que o corpo do pai foi envolvido, quando foi retirado de casa para ser escondido, incriminando assim a mãe, Rosa Grilo, que se encontra em prisão preventiva por suspeitas de autoria do crime em cumplicidade com o amante, António Joaquim.

O jornal SOL apurou junto de fontes conhecedoras da investigação que a perícia feita à bala que matou Luís Grilo – disparada a sangue frio contra a sua cabeça, onde ficou alojada – concluiu tratar-se de um projétil de características especiais, usado geralmente por forças de segurança ou na chamada ‘caça grossa’ e não em armas de defesa pessoal, como aconteceu neste caso. Trata-se de uma munição expansiva que, ao encontrar atrito – como um osso, por exemplo -, muda de trajetória, provocando maior dano. Em Portugal, aliás, só há registo de recurso a este tipo de balas num outro caso criminal.

Mas é nas buscas a António Joaquim, funcionário judicial no Campus de Justiça, que a Judiciária dá o grande passo para a resolução do caso: encontra a arma, uma 7.65, e entre as várias munições com projéteis normais descobre uma igual à bala fatal. Segundo fonte da investigação, o facto de o oficial de justiça ter na sua posse uma bala igual à recuperada na autópsia a Luís Grilo, bem como as características específicas desta munição, «é fundamental» para identificar a autoria do crime.

Estes factos são, por outro lado, considerados muito relevantes para provar o elevado grau de premeditação do crime e o cuidado colocado na sua preparação.

Recorde-se que uma das críticas feitas por Rosa Grilo nas entrevistas que tem dado a órgãos de comunicação social é de que o exame ao projétil não é conclusivo de que o mesmo tenha sido disparado pela arma apreendida, o que reforça a suspeita de que a opção de utilizar esta bala com características especiais foi estudada para baralhar a investigação caso o corpo de Luís Grilo viesse a ser encontrado.

Luís Grilo nem pressentiu o perigo

Mas os sinais de que a morte do triatleta foi planeada ao detalhe não ficam por aqui. Luís Grilo nem pressentiu o perigo. Apaixonara-se tardiamente pelo desporto e dedicava-lhe a maior parte do tempo, enquanto Rosa, na fase pós-balzaquiana, entretinha o coração fora do casamento com António Joaquim. Este, com dois filhos pequenos, divorciara-se havia dois anos para dedicar-se-lhe a tempo inteiro. Ou quase: pelo meio ainda tinha o jogo e as dívidas, aliadas do primeiro. Não se sabe em que momento terá surgido a ideia de matar Luís. Talvez quando o triatleta, temendo algum acidente, decidiu aumentar o capital do seu seguro de vida para 150 mil euros. O objetivo seria, em caso de azar nalguma competição, não deixar a família na corda bamba.

A pensar num álibi, com as férias escolares do filho à porta, Rosa Grilo terá precipitado o plano. Todos os anos, quando chegava o verão, o garoto gostava de passar os fins de semana na casa de veraneio de Júlia Grilo, a irmã mais velha do pai, na Costa de Caparica.

No domingo, 15 de julho, o casal sai de Cachoeiras, Vila Franca de Xira, onde reside, para levar o miúdo à Costa. Parecia um dia normal na rotina de uma família feliz. Almoçam em Alcochete e a seguir deixam o filho com a irmã de Luís, a última pessoa a vê-lo vivo. Seriam 16h00 quando repetem o percurso em direção a casa – mais uma hora, no máximo, e estariam de regresso a Cachoeiras.

Os registos do pagamento de portagens e as câmaras de videovigilância na posse da PJ, que tem razões para acreditar que Luís Grilo terá sido eliminado ainda naquele dia, ajudam a reconstruir esta fita do tempo. Rosa Grilo – que desde o desaparecimento do marido até à sua prisão parece envolvida num processo de invenção de que ainda se desconhece a versão final -, numa longa carta enviada à comunicação social na semana passada, revela o álibi montado para a sua defesa e do amante naquela noite.

Ela teria chegado a casa nesse dia por volta das 19h00 ou 20h00 e António Joaquim, a essa hora, teria ido buscar os dois filhos a casa da ex-mulher, como esta poderia comprovar, e com eles passaria a noite.

Curiosamente, Rosa que fazia parte da raça escravizada às novas tecnologias, desliga o telemóvel às 19h42. Só o voltaria a ligar no dia seguinte, a meio da manhã. Já o do marido mantinha-se ocupado.

Tinha um jantar de aniversário combinado para a quarta-feira seguinte com o grupo da equipa de Wikaboo e troca mensagens com eles via WhatsApp. Um dos colegas que com ele tinha participado recentemente numa prova de IronMan na Alemanha é surpreendido pela linguagem usada pelo homem avesso a observações misóginas: «Vai haver gajas?». O outro, indignado, responde: «As minhas únicas gajas são a minha mulher e a minha filha».

Os investigadores suspeitam que a esta hora Luís Grilo já estaria morto e que seria a mulher quem, para sustentar o álibi, mantinha a correspondência.

As versões de Rosa

Segundo a primeira versão de Rosa Grilo, o marido teria saído de casa para um treino de bicicleta a manhã do dia seguinte, uma segunda-feira, dia de trabalho.

Luís Grilo, engenheiro informático, tinha uma empresa do ramo em Alverca e era conhecido pela sua pontualidade. Mas as horas passavam e não regressava a casa. Pelas 16h00, Júlia Grilo leva o sobrinho a casa.

Cheirava-lhe bem, a limpo, o chão de madeira brilhava: «Como o marido não chegava e começava a ficar preocupada, disse-me que andava a limpar tudo para distrair os nervos». Ainda nessa tarde, Rosa liga à GNR e dá conta do desaparecimento do marido.

Nos dias seguintes, Rosa Grilo, enquanto espalha cartazes com a fotografia de Luís e se desdobra em entrevistas aos media, dá asas às intemperanças amorosas com o oficial de justiça.

Passam fins de semana fora. Em Agosto, o casal clandestino marca presença no Festival de Paredes de Coura e ela, cheia de poesia, faz-lhe empréstimos. Movimentos bancários que deixam rasto. Quando, um mês depois, o corpo do triatleta, completamente nu, enrolado num edredão e com um saco do lixo enfiado na cabeça, é encontrado escondido numa espécie de esgoto, num terreno em Covões, a 140 quilómetros de casa, talvez Rosa tenha estremecido pela primeira vez.

Segundo os investigadores, o local não foi escolhido à sorte. O casal de amantes terá feito dois raciocínios conciliatórios. Em primeiro lugar, com o calor do verão, e os cães e aves de rapina que abundam no local, o corpo poderia servir de repasto à bicharada e nunca vir a ser descoberto.

Mas, se tal acontecesse, entraria uma versão já concertada: seria Luís Grilo quem manteria uma relação amorosa. A casa que tinha em Benavila serviria de encontro aos adúlteros e alguém aproveitara para se vingar.

Mas, com os vestígios recolhidos nos objetos que rodeavam o corpo – onde é encontrado ADN de Rosa – e a análise ao tráfego de comunicações entre ela e António Joaquim, em dois tempos a PJ reconstitui o puzzle e detém os dois.

Encurralada com as provas, nomeadamente com a arma do crime, a mulher dá uma volta de 180 graus à história inicial. Apenas continua a negar que o crime se tenha dado na noite de domingo, para a qual ainda acredita ter um álibi perfeito. E sem pesares de alma, coloca suspeitas na conduta do marido. Diz agora que o marido lhe morreu no colo e que o crime se tratou de um ajuste de contas entre traficantes.

Afinal, o triatleta não fora treinar naquela segunda-feira, pois ambos foram surpreendidos logo pela manhã por três homens que Luís Grilo em tempos roubara. E como o marido andasse a receber ameaças, ela, assumindo a relação que mantinha com António Joaquim, ter-lhe-ia roubado a arma para proteger a família.

O trio de assaltantes queria recuperar as pedras preciosas e, como Grilo recusasse colaborar, é ela quem os leva a Benavila, onde supostamente estariam escondidas – aqui terá tentado encontrar os diamantes, mas em vão.

De regresso a casa, o trio abate a única pessoa que os poderia levar ao tesouro e deixa-a viva. E, para não deixarem vestígios, obrigaram-na a colaborar, sendo ela quem entrega os sacos do lixo usados para tapar o corpo da vítima – o ADN de Rosa é encontrado precisamente nestes sacos. Depois, sem qualquer cautela, em plena luz do dia, enfiam o corpo no carro e livram-se dele. A partir daí, a mulher diz nada mais saber.

Filho e registos eletrónicos destroem ‘álibi’

Mas, quando confrontada pela juíza sobre o edredão que envolvia o corpo do marido, Rosa, como a inspiração não avisa, mete os pés pelas mãos. Garante que a coberta é da casa da família em Benavila, onde costumava passar fins de semana com o filho e o marido, sendo normal encontrar-se lá vestígios seus, mas que só podem ter sido os antigos parceiros de negócios do marido que o retiraram de lá.

Às horas que Rosa diz ter estado com os assassinos do marido estava a fazer compras

É o filho quem arrasa esta versão da mãe. No dia em que a mãe foi detida, o garoto encontrava-se em casa com Júlia Grilo, que acompanhou a diligência. Confrontado com uma fotografia do edredão, o menor não teve dificuldades em localizá-lo: era da sua casa em Alcochete e cobria a cama do quarto de visitas.

Como se não bastasse, às horas que Rosa diz ter estado com os assassinos do marido, a PJ tem imagens de videovigilância dela a fazer compras e levantar dinheiro no multibanco do Pingo Doce de Alverca.


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