Ana Gomes: Putin não vai ficar pela Ucrânia

Ana Gomes não tem dúvidas que se nada for feito, Vladimir Putin não vai ficar pela Ucrânia e continuará a alargar a sua ofensiva militar aos Países vizinhos

Ana Gomes
Autor: Horta e Costa | 9 de Março de 2022

Ana Gomes não tem dúvidas que se nada for feito, Vladimir Putin “não vai ficar pela Ucrânia” e continuará a alargar a sua ofensiva militar aos Países vizinhos, colocando em causa a segurança da Europa e do mundo. “Já estamos na terceira Guerra Mundial”, diz a ex-eurodeputada, que apela a que UE e NATO não se fiquem pelas palavras, e passem à ação.

Putin vai avançar para a Moldávia. Depois, para os Países bálticos. E, se calhar, até para a Finlândia e a Suécia”.

A antiga diplomata chama a atenção que o presidente russo “não é louco”, e que a invasão à Ucrânia surge na sequência do que considera ser a “interpretação”, por parte deste, dos sinais que foram sendo dados, ao longo dos últimos anos, pela “complacência” dos líderes norte-americanos e europeus. “Putin lançou este ataque porque se convenceu que os norte-americanos e os europeus têm lideranças fracas, que as suas ameaças nunca são cumpridas ou ficam sempre a meio caminho”. “Temos sido uns cobardolas”, lamenta.

Para travar Putin, a antiga candidata presidencial (em 2021) apela à ação da União Europeia (UE) e da NATO, que considera terem a obrigação, em primeiro lugar, de proteger os ucranianos que “estão a ser chacinados”. “O povo ucraniano é europeu, como os polacos ou os romenos. Foram muitos dos países da UE e da NATO que desenvolveram o conceito de proteger os povos, no quadro das Nações Unidas”, recorda, questionando “porque razão esse princípio não se aplica, agora, aos ucranianos?”.

Como medidas urgentes, a ex-eurodeputada considera que deveria estar em cima da mesa da NATO “a criação de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia”, que permitisse proteger os ucranianos, “bombardeados” corredores humanitários, mas também “todos nós” – dando como exemplo os riscos dos bombardeamentos russos que, inclusive, já chegaram a atingir, na semana passada, a central nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, na cidade de Enerhodar.

Se Portugal não fizer o seu trabalho [de tornar públicas as relações entre oligarcas russos e pessoas e empresas no País], vai passar pela vergonha de ser obrigado por outros a fazê-lo

Apontando como cúmplices de Putin “vários políticos europeus” – destacando, neste capítulo, Gerhard Schroder, o ex-chanceler alemão, presidente do conselho de administração da Rosneft, o maior grupo petrolífero da Rússia, membro do comité acionista do Nord Stream 2, que detém o gasoduto feito para transportar gás da Rússia para Alemanha, construído pela Gazprom, e candidato à admnistração da desta empresa –, Ana Gomes defende que é urgente a Europa repensar a sua política e estratégia energética, “que se tornou demasiadamente dependente da Rússia”. “Há muito que isso já deveria ter sido repensado”, diz, referindo que, na prática, estes negócios “têm contribuído para financiar e reforçar a guerra” de Putin.

O compromisso da Europa com a democracia é, segundo Ana Gomes, fundamental – e a principal razão para que a UE e a NATO não “virem as costas” à Ucrânia. “O grande inimigo para Vladimir Putin é a União Europeia e a democracia. Putin não perdoa à Ucrânia e aos ucranianos por estes terem escolhido o caminho da Europa e da democracia, e não se deixaram subjugar por Moscovo”, destaca. “Putin quer destruir a Europa e foi por isso que, durante anos, financiou a extrema-direita europeia ou, por exemplo, o processo do Brexit”, acrescenta.

Nesta entrevista, Portugal também não foge às críticas. Ana Gomes considera que o Governo deveria, desde já, tornar “mais transparente” a relação dos oligarcas russo com empresas e pessoas no País, e também suspender ou revogar os beneficiários russos dos vistos gold ou da lei da nacionalidade, que permitiu a descendentes sefarditas tornarem-se cidadãos portugueses.

“Se Portugal não fizer o seu trabalho, vai passar pela vergonha de ser obrigado por outros a fazê-lo. Até já me ofereci, pro bono, para auxiliar as autoridades para identificar os cleptocratas russos que estão por detrás de muitos negócios em Portugal, através de testas-de-ferro”, afirma.

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