Canábis chega aos cigarros eletrónicos

Canábis sintética chega aos cigarros eletrónicos disfarçada de intensificadores de sabor. Chamam-se Kronic Juice, K2, Kaos ou Spice e foram criados para contornar a lei

Cigarros eletrónicos
Autor: Horta e Costa | 25 de Setembro de 2018

Chamam-se Kronic Juice, K2, Kaos ou Spice e foram criados para contornar a lei. Muitos mais potentes do que a marijuana, estes líquidos de vapear acabaram rapidamente banidos pelas autoridades de vários países, mas continuam à venda na internet.

“Ontem, quase morri. Estava a vapear umas gotas de Kronic Juice e fiquei imediatamente pedrado, o meu batimento cardíaco aumentou para níveis perigosos, conseguia literalmente ouvir o coração. Já passaram 24 horas e ainda o sinto bater. Na altura, pensei que ia morrer. Desatei a tremer como se estivesse a ter convulsões e comecei a imaginar demónios loucos.”

Este testemunho foi deixado há sete meses no fórum sobre marijuana do Reddit, por um estudante universitário americano que terminava com uma frase em letras maiúsculas: NÃO USEM ERVA SINTÉTICA OU KRONIC JUICE. SÓ A ERVA VERDADEIRA.

Nos meses seguintes, seguiram-se várias outras descrições. Algumas traziam conselhos – “Tens de deixar passar uns minutos entre as passas” – outras, confissões – “Não demoro muito a ficar dormente, como acontece com os opiáceos; gosto muito e recomendo desde que saibas o risco no caso de pessoas que têm paranóias”. A maioria chamava a atenção para os efeitos inesperados da canábis sintética.

Conhecida comercialmente como Kronic Juice, K2, Kaos ou Spice, a canábis sintética surgiu para contornar a lei e dar aos consumidores uma “pedra legal”. Contém uma cópia de THC (Tetra-hidrocanabinolo, o principal ingrediente ativo da marijuana), mas não de CBD nem de outros químicos naturais que ajudam a moderar a potência da droga. Pior: “Quando as pessoas compram estas substâncias, não têm garantia daquilo que contêm”, lembrou ao The Sun Roz Gittins, diretora da área de farmacêutica da associação britânica Addaction.

Os efeitos descritos incluem euforia, agitação, alucinações, paranóia, dor no peito, falta de ar, náuseas e vómitos. “Mas o grande problema dos canabinóides sintéticos é o facto de ainda se desconhecer o que provocam a longo prazo”, alerta a mesma especialista. Não terá sido por acaso que o químico John Hoffman – que a criou acidentalmente, em 2006, quando procurava uma nova maneira de desenvolver um medicamento anti-inflamatório – disse-a imprópria para consumo humano.

Dois anos depois de a canábis sintética ter sido banida do Reino Unido, uma investigação do Observer veio agora provar que ela continua a ser importada dos Estados Unidos, em líquidos de vapear. O jornal pediu a um laboratório para testar o conteúdo de frasquinhos da marca Kronic Juice que os comercializa como “intensificadores de sabor” e os resultados foram inequívocos.

Inquirida pelo Observer, a Agência National Contra o Crime do Reino Unido respondeu que tem trabalhado no sentido de “interromper o fornecimento online de drogas”, mas acrescentou que a canábis sintética não era uma “prioridade-chave”. Certo é que o site da empresa americana que fornecia Kronic Juice para todo o mundo ficou offline pouco depois de o jornal ter contactado via e-mail.

Leia também