Colapso no hospital de Loures

Saída de médicos e atraso de cirurgias e exames de oncologia. Perante o colapso, o hospital vai contratar médicos a 60 euros/hora, o dobro do tabelado

Hospital de Loures
Autor: Horta e Costa | 8 de Maio de 2022

Têm sido semanas de declínio no Hospital Beatriz Ângelo, que deixou de ser gerido pelo grupo Luz Saúde a 18 de janeiro, passando a ter gestão pública com o fim da parceria público-privada (PPP).

Médicos ouvidos pelo jornal Nascer do SOL são unânimes: a transição não correu bem, com impacto nos doentes, atingindo em particular obstetrícia, cirurgia mas também oncologia.

A saída de médicos para o privado (Luz e não só) e para outros hospitais públicos,  os limites às contratações e as mudanças na organização do trabalho, com cortes nos turnos de fim de semana para fazer exames, são alguns dos problemas que têm estado a causar atrasos na resposta clínica.

Anestesiologia é uma das áreas críticas, com impacto no resto do hospital: os 30 médicos anestesiologista nos quadros passaram a sete que chegaram a ameaçar demitir-se se nada fosse feito – mas saíram também imagialogistas e médicos especialistas em obstetrícia.

Quantos ao todo ninguém sabe dizer e o hospital, contatado pelo jornal Nascer do SOL, não respondeu em detalhe  – mas reconhece que no caso de anestesiologia está a viver uma “situação excecional”. 

Considerando a necessidade de reforço de médicos anestesiologistas no Hospital Beatriz Ângelo, foram desencadeados todos os mecanismos legais para dar resposta à situação, designadamente a formalização da proposta de contratação nessa especialidade.

“O Ministério da Saúde está a acompanhar o Hospital e a ARS de Lisboa e Vale do Tejo na avaliação de soluções específicas para esta situação excecional”, respondeu esta semana o hospital, assegurando que o “Conselho de Administração continua totalmente empenhado em suprimir, com a maior brevidade possível, as necessidades de recursos humanos identificadas e assim continuar a assegurar a adequada prestação de cuidados de saúde à sua população”.

Em janeiro estava tudo a funcionar

A solução terá sido encontrada nos últimos dias para tentar evitar o colapso do hospital, que acabava por estar a aumentar a referenciação para outros hospitais de Lisboa, numa bola de neve que fica maior à medida que se agravam as insuficiências nos hospitais da região, de Vila Franca de Xira, outra ex-PPP, a Setúbal.

Já depois da intervenção do Ministério da Saúde, a liderança do serviço de anestesiologia do Hospital Beatriz Ângelo deverá ser assumida por uma médica do Hospital de Santa Maria, em regime de cedência, com condições especiais para garantir que há equipa, explicou fonte próxima do processo.

O Governo deu  luz verde a contratos anuais para prestação de serviços médicos a 60 euros à hora, o dobro tabelado no SNS para especialistas (valor que pode ser excedido em casos de ‘manifesta urgência’ com autorização superior) por um prazo de um ano. Estará em cima da mesa a entrada de oito a dez médicos neste regime.

Atrasos em biopsias e exames

Entre as equipas do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, a informação de reforços começou a circular mas, espera-se para ver – até porque nem todos os problemas se resumem a anestesiologia. E em especialidades sensíveis como Oncologia as últimas semanas têm sido de preocupação crescente.

“Temos tido atrasos nas biopsias e na marcação de exames de seguimento e vigilância. Há exames que pedimos para daqui a seis meses, por exemplo ecografias e mamografias de seguimento, e que só estão a ser marcadas para daqui a um ano, já em 2023”, disse fonte hospitalar, explicando que esta era uma realidade com a qual não se confrontavam há três meses.

“Infelizmente a tendência noutros hospitais também é esta mas nós não estávamos habituados a isto, temos os exames sempre a horas. Há indicações clara para vigilância de doentes em risco de recidiva e os prazos internacionais para fazer esta vigilância atualmente não estão a ser cumpridos”, diz a mesma fonte, explicando que neste caso o problema prende-se com a saída de imagiologistas mas também com a forma como era gerida a atividade clínica antes do fim da PPP.

“Quando não havia vagas nos horários normais para agendamento, abriam vagas extra para exames prioritários para doentes oncológicos ou por exemplo da pediatria ao fim de semana. Como as vagas normais não chegavam, sendo as vagas normais o que o serviço consegue garantir a 100% ou 120% das 8 da manhã às 8 da noite nos dias de semana, tínhamos sempre turnos extra para exames ao sábado e domingo. Era o que nos permitia nunca ter tempos de espera excessivos”, explica a mesma fonte.

Também aqui a estratégia parece estar agora a mudar, com os primeiros sinais de que podem voltar a abrir turnos extra para alguns exames pelos menos ao sábado. “Basicamente esta transição não foi preparada. Saíram uns e entraram outros, mas o impacto de tudo isto não foi acautelado, com impacto nos doentes. E em oncologia sabemos que todos os dias contam”, desabafou um médico, à espera que o hospital se componha.

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