Covid-19: Novo medicamento pode reduzir mortalidade

Covid-19: Novo medicamento da Merck pode reduzir mortalidade e hospitalizações para metade. Resultados dos ensaios em doentes são animadores

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Autor: Adília Vieira | 4 de Outubro de 2021

A farmacêutica norte-americana Merck anunciou que vai solicitar ao regulador dos Estados Unidos autorização de uso de emergência de um medicamento para tratar pessoas infetadas com o SARS-CoV-2, após os resultados dos ensaios em doentes com covid-19.

Segundo a empresa, que pretende também avançar com o pedido de autorização para outras entidades reguladoras, os testes da fase três com este antivírico oral – molnupiravir – reduziram para metade as hospitalizações e as mortes em pessoas infetadas e com sintomas ligeiros.

Se for aprovado, o medicamento será o primeiro comprimido destinado a tratar a covid-19, uma vez que, até agora, todas as terapêuticas autorizadas requerem uma intervenção intravenosa em meio hospitalar.

“Penso que se traduzirá em muitos milhares de vidas a serem salvas em todo o mundo, onde há menos acesso a anticorpos monoclonais, e também neste país [EUA]”, disse Robert Shafer, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Stanford, citado pelo New York Times.

A Merck e Ridgeback Biotherapeutics adiantaram ainda que os primeiros resultados mostraram que, no grupo de doentes que receberam o molnupiravir cinco dias após os sintomas, registou-se uma taxa de hospitalização e de morte de cerca de metade em relação ao grupo a quem foi administrado um placebo.

O estudo acompanhou 775 adultos com covid-19 com sintomas leves a moderados e que foram considerados de maior risco para doença grave devido a problemas de saúde como obesidade, diabetes ou doenças cardíacas.

De acordo com os resultados apresentados, 7,3% dos que receberam molnupiravir duas vezes por dia durante cinco dias foram hospitalizados e nenhum tinha morrido até 29 dias após o tratamento, em comparação com 14,1% dos que tomaram o placebo – onde houve também registo de oito mortes, segundo a Reuters.

A reação da comunidade médica foi favorável, embora com cautelas: “Este não é um substituto para a vacinação. Não é uma cura milagrosa, mas uma ferramenta complementar”, afirmou Peter Hotez, diretor do Texas Children’s Hospital.

Hotez alertou ainda que, se o medicamento for usado de forma descuidada, a população pode acabar por desenvolver resistência ao medicamento. “Se for usado indiscriminadamente, pode ser um problema com os medicamentos antivirais”.

Oficiais da Casa Branca saudaram os resultados dos ensaios do medicamento, mas salientaram também que os comprimidos antivirais não são substitutos da vacinação.

“A forma correcta de pensar sobre isto é como uma potencial ferramenta adicional na nossa caixa para proteger as pessoas dos piores resultados da Covid”, disse Jeff Zients, conselheiro da Casa Branca para o coronavírus. A vacinação, disse, “mantém-se de longe a nossa melhor ferramenta contra a covid-19”, visando impedir a infeção, logo à partida.

Segundo a Merck, os resultados destes ensaios clínicos foram positivos e, por isso, cientistas pediram para terminarem mais cedo, um procedimento que acontece quando os dados demonstram que um tratamento funciona e que, por isso, não há necessidade de mais testes antes de solicitar a autorização.

Os resultados do estudo foram divulgados pela empresa, mas não foram revistos por pares. A Merck afirmou ainda que pretende apresentá-los numa futura reunião médica nos EUA.

Os responsáveis dos laboratórios adiantaram também que pretendem enviar os dados para o regulador norte-americano (FDA) nos próximos dias, que poderá tomar uma decisão no prazo de algumas semanas.

“Excedeu o que eu pensei que o medicamento poderia ser capaz de fazer neste ensaio clínico”, adiantou Dean Li, vice-presidente do Merck Research Laboratories, para quem uma redução de 50% das hospitalizações e de mortes “é um impacto clínico substancial”.

Segundo a farmacêutica, o comprimido, de duas tomas diárias durante cinco dias, interfere na capacidade do coronavírus de copiar seu código genético e de se reproduzir.

O molnupiravir pertence a uma classe de medicamentos antivirais chamados de “inibidores da polimerase”, que têm como alvo uma enzima de que os vírus precisam para copiar o seu material genético.

O fármaco da Merck foi inicialmente desenvolvido como um inibidor do vírus influenza e do vírus sincicial respiratório, outras infeções respiratórias agudas.

O medicamento, caso aprovado, seria o primeiro comprimido a tratar a covid-19; e é provável que seja seguido por uma série de outros comprimidos antivirais que outras empresas estão a correr para trazer para o mercado. Têm o potencial de atingir mais pessoas do que os tratamentos de anticorpos que estão a ser amplamente utilizados nos Estados Unidos para doentes de alto risco.

O governo dos EUA já comprometeu a adquirir 1,7 milhões de doses do medicamento, caso seja autorizado pela FDA, e a Merck adiantou que pode produzir 10 milhões de doses até o final do ano.

O NYT refere ainda que o número limitado de doses que o governo dos EUA encomendou significa que apenas uma pequena fracção daqueles que contraírem covid-19 poderão, provavelmente, receber o tratamento, pelo menos numa fase inicial.

Os resultados de ensaios clínicos de dois outros comprimidos antivirais, um desenvolvido pela Pfizer e outro da Atea Pharmaceuticals e Roche, também são esperados nos próximos meses.

“Um enorme avanço”

“Um antiviral oral seguro, acessível e eficaz seria um enorme avanço na luta contra a covid”, disse Peter Horby, professor de doenças infecciosas na Universidade de Oxford.

O estudo visou pacientes com covid-19, confirmada em laboratório, que tinham sintomas durante não mais do que cinco dias. Além disso, todos os pacientes tinham pelo menos um factor de risco associado, como obesidade ou idade mais avançada.

A Reuters refere ainda que medicamentos da mesma classe do molnupiravir têm sido associados a malformações à nascença em estudos com animais. A Merck afirmou que estudos semelhantes de molnupiravir – realizados durante mais tempo e em doses mais elevadas do que as utilizadas em humanos – indicam que o medicamento não afecta o ADN dos mamíferos.

A Merck referiu ainda que a sequência viral feita até agora mostra que o molnupiravir é eficaz contra todas as variantes do coronavírus, incluindo a Delta – altamente transmissível e que conduziu ao aumento de hospitalizações e mortes a nível mundial.

Acrescenta ainda que as taxas de eventos adversos eram semelhantes tanto para os pacientes que receberam molnupiravir como com placebo, mas sem adiantar pormenores.

A Merck afirmou, porém, que os dados mostram que o molnupiravir não é capaz de induzir alterações genéticas em células humanas, mas que os homens inscritos nos seus ensaios tiveram de se abster de relações ou concordar em utilizar contracepção. Já as mulheres em idade fértil no estudo podiam estar grávidas e também tinham de utilizar contraceptivos.

O Molnupiravir está também a ser estudado num ensaio de Fase III para prevenir a infecção em pessoas expostas ao coronavírus.

Medicamento “anima” Wall Street

A bolsa nova-iorquina, na sexta-feira, encerrou em alta, com os investidores entusiasmados com o anúncio de um comprimido contra o novo coronavírus, que se impôs às preocupações com a inflação e à crise no Congresso dos EUA.

O grupo Merck, que se designa por MSD fora dos EUA, tenciona pedir “assim que for possível” uma autorização de urgência para a sua colocação no mercado.

“Muitas pessoas, e não apenas investidores, esperam um medicamento contra o novo coronavirus”, comentou Kim Forrest, responsável pelos investimentos na sociedade de gestão Bokeh Capital Partners, que atribuiu o essencial da subida sexta-feira em Wall Street à Merck.

Nas ações, o título da Merck conheceu uma sessão fausta, com uma valorização de 8,37%, influenciou numerosas empresas.

Já o fabricante de vacinas contra o novo coronavirus, o laboratório Moderna, sofreu acentuadamente, ao perder 11,37%, depois de ter conhecido uma valorização estratosférica desde há um ano.

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