Em risco de bancarrota e ninguém diz nada?

Publicado por Mtv24 Redação em 10 de Junho de 2020 | 20:51

Sim o risco de bancarrota regressou e Marcelo, Costa e Rio ainda não perceberam ou pelo menos não mostram que estão conscientes disso

Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa se preocupa com uma nova fase de desconfinamento e António Costa comenta o R (o fator de transmissibilidade da Covid-19), Rui Rio dá bicadas no Ministério Público e Mário Centeno…sai de fininho. Nenhum deles avisa o país sobre os riscos de uma nova crise de financiamento do Estado e do país, que é cada vez mais provável.

As semelhanças de 2020 com 2009 são arrepiantes. A uma brutal crise económica à vista, o governo responde com um grande programa de investimento público, mais uma vez nas escolas, em computadores para todos e em obras de regime com muitas rotundas e variantes. A Parque Escolar foi a festa que se viu. Agora, não há concursos até 750 mil euros e as prioridades não são discutidas, ao contrário do prometido. Uma nova La Seda assoma no horizonte, desta vez disfarçada de fábrica de hidrogénio em Sines, para passar mais subsídios a favor dos lobies das fotovoltaicas.

Entretanto, continua prometido um aumento nominal de 1 por cento nos salários dos funcionários públicos que, como se sabe, a ser aplicado implica um aumento de 2 a 3 por cento na massa salarial a cargo do Estado, por causa das horas extraordinárias e outros pagamentos indexados ao vencimento base. Não é que haja demasiados funcionários públicos – não há – nem que as pessoas que trabalham para o Estado não mereçam, ganham pouco e têm toda a legitimidade para pedir mais. O problema é se o país pode pagar aumentos. Em 2009, um aumento nominal de 2,9 por cento dos salários também contribuiu para acelerar a vinda dos credores internacionais.

O IVA, esse, haverá de descer na eletricidade. E já agora no gás. E porque não nos combustíveis. Tal como baixou em 2009…

No ano seguinte, 2010, foi o que se viu. José Sócrates cortou subsídios em Março, cortou despesas em junho, aumentou o IVA em Setembro e cortou salários em Outubro. Isso! Quem cortou salários da função pública, entre 3,5 e 10 por cento, foi José Sócrates em Outubro de 2010, para vigorar a 1 de janeiro de 2011. Forte austeridade de esquerda que haveria de ser embrulhada pelas máquinas de marketing político como austeridade da Troika, a tal que foi chamada à pressa pelo mesmo José Sócrates porque já não tinha dinheiro para pagar as contas. E que também foi chamada pelo campeão da redução do défice do Estado (em 2007) Teixeira dos Santos.

Estranhas semelhanças de 2009 com 2020

Agora, tal como naquele ano, ninguém estava muito interessado em ouvir falar de bancarrota. O adormecimento coletivo era pesado, uma espécie de anestesia paralisante. O que era preciso era manter o investimento público para aumentar o consumo interno e compensar a menor procura externa…com dinheiro pedido lá fora. Exatamente a mesma frase que acabamos de ouvir dos nossos governantes – fomentar a procura interna com mais investimento público…com dinheiro que não temos, haverá de ser pedido nos mercados.

Agora, para a maioria os temas de conversa são as demarcações e os lugares disponíveis em cada praia e o impacto do confinamento nos animais domésticos.

De facto, há um a pandemia, sim, que faz toda a diferença. O Governo não teve a culpa e gastou dinheiro bem gasto na emergência, para ajudar famílias e empresas.

Mas há também a mesma incapacidade de olhar para o horizonte e ver o que lá vem: um ror de dívida que começa em mais 20 mil milhões só para financiar o orçamento suplementar deste ano.

Para pagar a emergência, a consolidação económica e social… e as outras despesas que não desapareceram, até aumentaram, enquanto as receitas de impostos desapareceram no buraco negro da pandemia.

Sim, haverá défice público recorde em 2020, mais de 13 mil milhões de euros de buraco financeiro. Haverá défice também em 2021. E em 2022 e seguintes. E défices em espelho, nas contas externas, que estão de regresso – os mais perigosos porque são os mais importantes para as classificações de dívida das mal-afamadas agências.

Na vertigem da pandemia desapareceu grande parte da economia composta de exportações, turismo e transporte aéreo à cabeça. Economia que não se pode recuperar por decreto.

E não, o dinheiro que virá de Bruxelas e Berlim não vem só para tapar défice. Vem sobretudo para a economia, a conta gotas durante sete anos. Só uma parte chegará depois aos cofres do Estado.

Um ano a pedir crédito abundante no exterior, aguentamos. Dois não. Três muito menos

Marcelo, Costa e Rio deviam estar já reunidos de emergência para discutir um plano de substituição de importações por produção local; um gigantesco programa para Comprar Português e evitar maior sangria nas contas externas; uma escolha de setores estratégicos para apostar na “reindustralização” do país; um plano para estancar o aumento da despesa pública e garantir mais receita, para dominar o défice. Cada saldo negativo acumula sempre no stock da dívida, que já se adivinha acima dos 140 por cento do PIB, a caminho dos 270 mil milhões de euros. Um cheirinho de Grécia a pairar no ar.

Sim o BCE tem o poder de preservar o Euro. Não, o BCE não tem o poder de segurar eternamente cada uma das dívidas dos estados híper endividados.

Sim o risco de bancarrota regressou e Marcelo, Costa e Rio ainda não perceberam ou pelo menos não mostram que estão conscientes disso.

Já que os políticos não mostram perceber como funciona uma união monetária sem união política, nem como funcionam os mercados financeiros, fica o alerta, para que não se diga que os jornalistas não avisaram.

Opinião de José Gomes Ferreira, Jornalista

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