Fechem a Porta, Apaguem as luzes, Venham ouvir as DOCE

Apesar da sua curta existência – sete anos –, as Doce deixaram marcas na música que ainda hoje perduram

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Autor: Adília Vieira | 4 de Julho de 2021

A poucos dias da, por várias vezes adiada, estreia de “Bem Bom”, biopic sobre as Doce, recordemos a história do grupo que ajudou a moldar os anos 80 num Portugal acabado de sair de meio século de ditadura. Apesar da sua curta existência – sete anos –, as Doce deixaram marcas na música que ainda hoje perduram: como resistir a temas como ‘Amanhã de Manhã’ ou ‘Ali Babá’?

Temos tendência para imaginar o mundo pré-televisão a cores e pré-fotografias a cores mergulhado em apenas três tonalidades: preto, branco e cinzento. É como se tivessem sido os avanços tecnológicos, a descoberta de novas formas de registar a história, a possibilitar a entrada da cor nas casas, nas pessoas.

O lapso surge na infância e pode prolongar-se até à idade adulta, impulsionado pelos registos existentes dessas épocas. Bill Watterson, célebre autor da não menos célebre banda-desenhada “Calvin & Hobbes”, fez inclusive uma piada em torno da coisa: antigamente, o mundo era de facto preto-e-branco, e a existência de quadros a cores é justificada com a ideia de que todos os grandes artistas eram loucos…

O que é válido para milhões de pessoas por todo o mundo é naturalmente válido para o povo português, especialmente para aqueles que nasceram após o 25 de Abril. A miséria provocada por 50 anos de ditadura atinge também a imaginação. O Portugal de Salazar era, descrito de forma simplista, cinzento, triste, enfadonho. Só com a revolução, que nos trouxe o vermelho dos cravos, é que os portugueses puderam finalmente descobrir todas as tonalidades que o olho humano consegue captar. O conservadorismo cromático acabou no mesmo dia em que os militares saíram à rua.

Menciona-se esta descoberta da cor para enquadrar as Doce numa sociedade portuguesa acabada de sair da ditadura e da revolução que lhe pôs fim, ainda a lutar contra os seus dois rostos, o do conservadorismo e o do progressismo. Porque, não fosse essa descoberta, muito possivelmente as Doce não teriam sido mais que uma nota de rodapé da pop portuguesa. Alguém consegue imaginar Fátima Padinha, Lena Coelho, Teresa Miguel e Laura Diogo sem o púrpura e o azul do Festival da Canção de 1980? Alguém consegue ouvir o pós-disco tribal de ‘Bem Bom’, e pensar num mundo a preto-e-branco?

As Doce foram das primeiras, mas não foram a primeira banda pop portuguesa só com mulheres. Antes, houve as Cocktail, também sob a mentoria de Tozé Brito, e que contaram nas suas fileiras com Lena Coelho e com Fernanda de Sousa, hoje conhecida nacionalmente como Ágata. No entanto, só as Doce alcançaram o estatuto reservado às grandes bandas pop: o de serem capazes de marcar um momento e uma geração, através de canções que duram no tempo, que se tornam parte da memória cultural de um povo.

Quando Jack White viu ‘Seven Nation Army’, dos White Stripes, ser apropriada por claques de futebol de Lisboa aos Urais, a sua reação não poderia ter sido mais efusiva: «Nada há de mais belo, na música, que quando as pessoas adotam uma melodia e permitem que ela entre no panteão da música popular», afirmou. Ora isso foi, precisamente, o que aconteceu a ‘Amanhã de Manhã’, o primeiro single das Doce.

Da criação das Doce ao lançamento de ‘Amanhã de Manhã’, composta por Sargeant e Brito, foi um curto salto. Daí ao sucesso, não o foi menos. ‘Amanhã de Manhã’ tornou-se num dos grandes êxitos do Portugal de 1980, que se apaixonou definitivamente pelo quarteto quando o viu atuar na edição desse ano do Festival da Canção – o primeiro que a RTP transmitiu a cores. O tema que apresentaram, homónimo, alcançou o segundo lugar, sendo apenas batido pelo grande amigo e colega de Tozé Brito, José Cid. Mas a imagem, dos vestidos coloridos, da coreografia simples mas sorridente, do brilho das lantejoulas e dos penteados, foi mais que marcante: foi um sinal claro de que um novo Portugal estava a nascer.

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