Golpe de Estado na Venezuela

Publicado por Vítor Santos em 30 de Abril de 2019 | 13:41

Operação Liberdade. Guaidó diz que tem militares do seu lado e prepara-se para derrubar Maduro

Operação Liberdade - Venezuela

O Presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou hoje que os militares deram “finalmente de vez o passo” para acompanhá-lo e conseguir “o fim definitivo da usurpação” do Governo do Presidente Nicolás Maduro.

“O 01 de maio, o fim definitivo de usurpação começou hoje”, disse Guaidó num vídeo publicado na sua conta na rede social Twitter, no qual se pode ver o Presidente interino com um grupo de soldados na base de La Carlota, a leste de Caracas.

“São muitos os militares. A família militar de uma vez (por todas) deu o passo. A todos aqueles que estão a ouvir-nos: é o momento, o momento é agora, não só de calma, mas de coragem e sanidade para que chegue a sanidade à Venezuela. Deus os abençoe, estamos a avançar. Vamos recuperar a democracia e a liberdade na Venezuela, referiu Guaidó.

No mesmo vídeo, Juan Guaidó chamou às ruas todos os venezuelanos que nas últimas semanas se comprometeram a demonstrar nas ruas que exigem a saída de Nicolas Maduro, Presidente e chefe de Governo contestado.

“Contamos com o povo da Venezuela de hoje, as forças armadas estão claramente do lado das pessoas, estão do lado da Constituição, leais ao povo da Venezuela, às suas famílias, ao futuro, ao progresso”, disse Guaidó.

Há manifestações agendadas para esta quarta-feira, 1 de maio, incluindo aquela que Guaidó acredita que vá ser “a maior marcha na História da Venezuela”.

Ao lado do Presidente interino estava Leopoldo López, um polícia da oposição que estava em prisão domiciliária, mas que foi libertado às ordens de Guaidó. Através da rede social Twitter Leopoldo López disse que “se iniciou a fase definitiva para cessar a usurpação, a Operação Liberdade. Fui libertado por militares às ordens da Constituição e do Presidente Guaidó. Estou na base de La Carlota. Mobilizemo-nos todos. É hora de conquistar a liberdade. Força e fé”.

Na imagem, Guaidó e López aparecem de fita azul no braço, um elemento identificativo das forças leais ao Presidente interino.

Através do Twitter, a Assembleia Nacional, órgão em que a oposição tem maioria, escreveu que “chegou a fase final da Operação Liberdade. Preparámos-nos e organizámos-nos e estamos prontos para conquistar a liberdade na Venezuela”.

O Governo da Venezuela confirmou, por seu lado, que está a confrontar um pequeno grupo de “traidores militares” que estão a tentar um golpe de Estado, segundo o ministro da Informação Jorge Rodriguez.

“Informamos o povo da Venezuela que neste momento estamos a enfrentar e desativar um reduzido grupo de militares traidores que se posicionaram no Distribuidor Altamira (leste de Caracas), para promover um golpe de Estado contra a Constituição e a paz da República”, anunciou o ministro venezuelano de Comunicação e Informação na sua conta do Twitter.

Segundo Jorge Rodríguez “a esta tentativa” de golpe “uniu-se a ultradireita golpista e assassina, que anunciou a sua agenda violenta desde há meses”. “Pedimos ao povo para se manter em alerta máximo para, junto com as gloriosas Forças Armadas Bolivariana, derrotar esta tentativa de golpe e preservar a paz. Venceremos”, frisou na sua mensagem o ministro do regime de Nicolas Maduro.

O Presidente da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) da Venezuela, Diosdado Cabello, pediu aos partidários ‘chavistas’ que se concentrem nos arredores do palácio presidencial para “defender” a revolução perante o “plano golpista” contra o Governo de Nicolás Maduro.

“Convidamos todo o povo de Caracas, venham para o palácio de Miraflores, aqui estamos, se Deus quiser. Venham a Miraflores para nos encontrar no palácio a defender a revolução, defender o nosso povo, imediatamente”, declarou num ao canal estatal VTV.

Tensão, confrontos e as primeiras reações

Começam a surgir as primeiras imagens de tensão na Venezuela, em Caracas e nos arredores da base militar de La Carlota, onde Guaidó anunciou esta Operação Liberdade.

Antonio Tajani, presidente do Parlamento Europeu, foi dos primeiros a reagir, através do Twitter: “Hoje, 30 de abril, marca um momento histórico para o regresso da democracia e da liberdade na Venezuela, que Parlamento Europeu sempre tem apoiado. A libertação do Prémio Sakharov Leopoldo Lopez por militares à ordem da Constituição é uma grande notícia” Vamos Venezuela livre!”

Já o Presidente da Bolívia, Evo Morales, também através do Twitter, “condenou energicamente” esta “tentativa de golpe de Estado na Venezuela por parte da direita submissa a interesses estrangeiros”.

Na mesma linha, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez critica “este movimento golpista que pretende trazer violência ao país. Os traidores colocaram-se à frente deste movimento subversivo”, escreveu no Twitter.

Governo português recomenda prudência nas próximas horas

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, apelou a uma solução pacífica. “Politicamente, Portugal mantém o apoio a uma solução pacifica e política na Venezuela, que do nosso ponto de vista passa necessariamente pela convocação de novas eleições”, afirmou à agência Lusa, em Xangai, onde se encontra em visita oficial, Santos Silva.

“Estou em contacto permanente com a nossa embaixada em Caracas. Por enquanto é muito difícil dizer qual é a dimensão das movimentações”, ressalvou o chefe da diplomacia portuguesa. Santos Silva apelou ainda aos cidadãos portugueses no país que tomem as medidas de segurança “indispensáveis” nesta ocasião.

Já o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, aconselhou a comunidade portuguesa e lusodescendente residente na Venezuela a adotar medidas de segurança e comportamentos prudentes nas próximas horas, face à situação que se vive no país.

O governante, que cancelou uma visita ao Canadá devido à situação na Venezuela, adiantou ainda que o Governo português está a acompanhar “de perto” o evoluir da situação, sendo para já “prematuro” pronunciar-se em qualquer dos sentidos, tendo em conta “a escassa informação” que existe.

Foram também tomadas medidas de segurança por parte do embaixador relativamente aos consulados gerais de Caracas e Valência e à própria embaixada, tendo sido determinado que os funcionários se devem manter em casa e evitar deslocar-se para os respetivos postos.

“Está tudo muito confuso ainda”

Uma representante da comunidade portuguesa na Venezuela disse hoje à agência Lusa que a situação no país “é de grande incerteza” depois do anúncio de que os militares passaram a apoiar o autoproclamado Presidente, Juan Gauidó.

“Está tudo muito confuso ainda. Estamos praticamente com as comunicações caídas, com as redes sociais a funcionar a meio gás e ainda não temos uma perspetiva do que é”, disse Milu de Almeida, por telefone, a partir de Caracas.

A portuguesa, que representa os emigrantes na Venezuela no órgão consultivo do Governo para as questões da emigração (Conselho das Comunidades Portuguesas), disse que, a pouca informação que chega através das redes sociais, dá conta de que “aparentemente o Presidente Guaidó e o líder da oposição Leopoldo Lopes, que estava preso, estão numa base aérea com vários militares e estão a pedir ao povo para sair à rua”.

Milu de Almeida adiantou que a rádio e televisão mantêm a programação normal como “se não se passasse nada”.

A emigrante adiantou que foi aconselhada pelo filho a permanecer em casa em Caracas, onde são atualmente 08:00.

“O meu filho disse para não sair de casa porque a autoestrada está bloqueada, os caminhos estão bloqueados, os miúdos não tiveram aulas. Mandaram todo o mundo para casa e não recebem ninguém”, adiantou.

“O que estamos a viver é isto: muita incerteza, mas não consigo dizer, neste momento, se foi isto ou aquilo. Teremos que esperar um bocado mais para ver o desenvolvimento”, acrescentou.

A representante do CCP diz que a comunidade portuguesa continua “com a mesma preocupação e a mesma incerteza” e na expetativa de ver o que “isto vai dar”.

“Não é que a comunidade queira abandonar o país, mas estamos a passar por momentos muito difíceis e as pessoas têm esperança que isto comece a normalizar porque se não normalizar têm que tomar outros rumos e outras decisões. Mas de momento, não sabemos o que fazer ainda”, sublinhou.

23 de janeiro, o início da mudança

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando o líder do parlamento, Juan Guaidó, se autoproclamou Presidente da República interino e declarou que assumia os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó, 35 anos, contou de imediato com o apoio da maioria da comunidade internacional e prometeu formar um Governo de transição e organizar eleições livres.

A maioria dos países da União Europeia, entre os quais Portugal, reconheceram Guaidó como Presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, recusou o desafio de Guaidó e denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado liderada pelos Estados Unidos.

Esta crise política soma-se a uma grave crise económica e social que levou mais de 2,3 milhões de pessoas a fugirem do país desde 2015, segundo dados da ONU.

Na Venezuela residem cerca de 300.000 portugueses ou luso-descendente.

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