Morreu o ator Rogério Samora

Rogério Samora, de 63 anos tinha sofrido duas paragens cardiorrespiratórias, a primeira durante as gravações da novela “Amor Amor”, da SIC, em julho

Rogério Samora
Autor: Adília Vieira | 15 de Dezembro de 2021

Morreu Rogério Samora, avançou a SIC Notícias esta quarta-feira. Com uma carreira de peso no cinema, teatro e na televisão, era um dos atores incontornáveis da sua geração.

Rogério Samora encontrava-se em observações no hospital Amadora-Sintra desde segunda-feira, após um agravamento do estado de saúde, marcado por febre persistente. O ator, em coma mais de 146 dias, tinha sido transferido a 28 de setembro para a unidade de cuidados continuados integrados da Associação de Socorros da Freguesia da Encarnação (ASFE Saúde), no município de Mafra.

Antes, já tinha estado no Hospital Amadora-Sintra desde que teve a primeira de duas paragens cardiorrespiratórias, a 20 de julho, no decorrer das gravações da novela “Amor Amor”, da SIC. O ator foi socorrido pelo INEM ainda no local e transportado para o hospital, onde foi internado nos Cuidados Intensivos Cardíacos.

Na novela “Amor Amor”, vestia a pele de Cajó, um dos responsáveis pela editora Lua de Mel. A sua personagem foi casada com Paloma (Rita Blanco) e acompanha de perto a carreira de Romeu Santiago (Ricardo Pereira).

Rogério Samora iria também fazer parte da segunda temporada da produção, cujas gravações já arrancaram.

Recentemente, também tinha participado na primeira temporada do programa “A Máscara”. No concurso da SIC, interpretou o “Ananás”.

Nos últimos anos, o ator participou em várias produções da SIC, como “Nazaré”, “Golpe de Sorte”, “Amor Maior”, “Poderosas”, “Mar Salgado” ou “Sol de Inverno”, e também entrara nas primeiras telenovelas do canal, “Ganância” e “Fúria de Viver” (2001-2002).

A sua estreia em televisão, feita na RTP, remonta a 1982, à telenovela “Vila Faia”, na qual contracenou com Rui de Carvalho, Glória de Matos, Mariana Rey Monteiro e Nicolau Breyner, seguindo-se, ainda na televisão pública, “A Banqueira do Povo” (1993), ao lado de Alexandra Lencastre, Eunice Muñoz, Raul Solnado, Diogo Infante e João Perry.

O INÍCIO DE UMA CARREIRA DE PESO

Nascido em Lisboa a 28 de outubro de 1958, Rogério Samora estudou teatro no Conservatório Nacional em 1976 e estreou-se profissionalmente em dezembro de 1980 na Casa da Comédia, pela mão de Filipe La Féria com a peça “A Paixão Segundo Pier Paolo Pasolini”. A sua interpretação valeu-lhe o Prémio de Ator Revelação no ano a seguir.

Sob a direção de La Féria, Samora participou ainda em “A Marquesa de Sade”, de Yukio Mishima, “A Ilha do Oriente”, de Mário Cláudio, e em “Eva Perón”, de Copi.

O ator trabalhou com outros encenadores, como Fernanda Lapa, em “Medeia é bom rapaz”, de Luís Riaza, “As Bacantes”, de Eurípides, e em “Sétimo Céu”, de Caryl Churchill, com Artur Ramos, em “A Castro”, de António Ferreira, com Luís Miguel Cintra, em “Cimbelino”, de Shakespeare, e com Solveig Nordlund, em “Traições”, de Harold Pinter. Trabalhou também com Carlos Avilez, diretor e fundador do Teatro Experimental de Cascais, onde se apresentou em peças como “Hamlet”, de Shakespeare, e em “Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente”, de Natália Correia.

MANOEL DE OLIVEIRA, FERNANDO LOPES E OUTROS CÚMPLICES

A entrada no cinema aconteceu com Manoel de Oliveira em “O Sapato de Cetim” em 1985, surgindo já como protagonista dois anos depois em “Matar Saudades” (1987), como um emigrante que regressava à sua terra natal para descobrir que lá só a morte o esperava.

O filme era realizado por Fernando Lopes, com quem manteve uma importante colaboração artística de que resultaram os seus melhores trabalhos no grande ecrã, incluindo uma célebre dupla com a atriz Alexandra Lencastre (que já existia na TV) em “O Delfim” (2001) e “Lá Fora” (2004), e passando também por “98 Octanas” (2006) e “Os Sorrisos do Destino” (2009).

Apesar das muitas exigências da carreira televisão, Rogério Samora foi até há poucos anos um dos melhores e mais ativos atores do cinema português: como protagonista ou secundário, entrou em mais de 50 curtas e longas-metragens, incluindo alguns filmes internacionais (“Diário de Um Novo Mundo”, “La Caja – Quatro Mulheres e um Morto) e sucessos como “O Crime do Padre Amaro” e “O Filme do Bruno Aleixo”.

Destacam-se a colaboração regular com Manoel de Oliveira (“Os Canibais”, “A Caixa”, “Party”, “Palavra e Utopia”, “Porto da Minha Infância”, “O Quinto Império – Ontem como Hoje” e “Singularidades de uma Rapariga Loura”) e títulos de Luís Filipe Rocha (“Sinais de Fogo” e “A Passagem da Noite”), João Mário Grilo (“Longe da Vista” e “A Falha”), António Pedro Vasconcelos (“Aqui d’El Rei!”, “Jaime” e “Os Imortais”), João Botelho (“Quem És Tu?”, “O Fatalista” e “A Corte do Norte”), Joaquim Leitão (“Adão e Eva”, “Inferno”), Rosa Coutinho Cabral (“Serenidade” e “Lavado em Lágrimas”), José Fonseca e Costa (“Viúva Rica Solteira Não Fica”), José Álvaro Morais (“O Bobo”), Artur Semedo (“Um Crime de Luxo”), Manuel Mozos (“Xavier”), Maria de Medeiros (“Capitães de Abril”), Raoul Ruiz (“Combate de Amor em Sonho”), Jorge Cramez (“O Capacete Dourado”), Bruno de Almeida (“The Lovebirds”), Jorge Paixão da Costa (“O Mistério da Estrada de Sintra”), Miguel Gomes (“As Mil e Uma Noites – Volume 1 e 2”) e Sérgio Tréfaut (“Raiva”).

Esteve também na primeira dobragem portuguesa de um filme de animação da Disney: foi a voz de Scar de “O Rei Leão” (1994).

Em 2019, participou no filme “Amadeo”, de Vicente Alves do Ó, com estreia prevista para o ano passado, adiada, entretanto, devido à pandemia.

UM ROSTO QUE GANHOU LUGAR NO PEQUENO ECRÃ

Na televisão, antes de regressar à estação de Carnaxide, Rogério Samora protagonizou várias novelas e séries da TVI, como “Destino Imortal”, “Flor do Mar”, “Equador”, “Casos da Vida”, “Mar de Paixão” e “Fascínios”, e, nos primeiros anos do canal, foi co-apresentador ao lado de Mila Ferreira do concurso “Queridos Inimigos”.

No pequeno ecrã, o ator fez parte ainda do elenco de “Jura” (SIC), “O Jogo” (SIC), “Super Pai” (TVI), “Médico de Família” (SIC), “Roseira Brava” (RTP), “A Grande Aposta” (RTP), “Alentejo sem Lei” (RTP), “A Mulher do Senhor Ministro” (RTP), “Os Melhores Anos” (RTP), “Esta Noite Sonhei com Brueghel” (RTP) ou de “Vidas Proibidas – Ballet Rose” (RTP).

Pelos seus trabalhos na televisão, cinema e teatro, o ator conquistou vários prémios, incluindo Globos de Ouro, atribuídos pela SIC e pela revista Caras.

Em 2010, Rogério Samora foi distinguido com o Golfinho de Ouro no Festival Internacional de Cinema (Festróia), em Setúbal, tornando-se no quinto ator a receber o galardão, após Ruy de Carvalho (2003), Raul Solnado (2004), Joaquim de Almeida (2006) e Nicolau Breyner (2008).

“É um prémio merecido e está na altura de o atribuir”, destacava a diretora do certame, Fernanda Silva, sublinhando que “já interpretou mais de 150 personagens – entre filmes, séries e novelas – ao longo de 30 anos de carreira”.

Com o músico Rodrigo Leão, participou também em várias sessões de poesia, nomeadamente no antigo bar Frágil, em Lisboa, confessando que, entre os autores que mais gostava de dizer, estavam Agostinho da Silva e José Agostinho Baptista.

Em 2020, num trabalho com a fotógrafa Margarida Dias, posou nu, no contexto do confinamento, para um calendário cujas vendas se destinavam a apoiar a Rede de Emergência Alimentar. O próprio ator partilhou várias fotografias da campanha, nas suas redes sociais, escrevendo: “Ajudar não pode parar”.

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