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Nasceu bebé de mãe em morte cerebral

Publicado por Adília Vieira em 28 de Março de 2019 | 20:18

Parto estava previsto para amanhã, mas acabou por ser antecipado devido a complicações. Mãe, estava em morte cerebral desde o fim de dezembro

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Já nasceu Salvador, o filho da canoísta Catarina Sequeira que estava em morte cerebral desde o fim de dezembro. O parto estava previsto para sexta-feira, mas terá sido antecipado devido a algumas complicações.

O nascimento do bebé foi confirmado pelo treinador de Catarina Sequeira, que acompanhava a jovem desde os 11 anos. Salvador “nasceu saudável”, contou José Cunha. “O Salvador nasceu às 4h32 de hoje (quinta-feira) e está internado no Serviço de Neonatologia do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ).”, adiantou fonte do hospital.

Em declarações ao jornal i, o treinador de canoagem revelou que o óbito da jovem de 26 anos já foi declarado e o funeral, que estava previsto para a próxima semana, foi antecipado para esta sexta-feira. A cerimónia será realizada amanhã “às 14h30 na Igreja de Crestuma, em Vila Nova de Gaia”, de onde Catarina Sequeira era natural.

Recorde-se que a jovem estava grávida de 12 semanas quando uma crise de asma, doença da qual sofria desde pequena, a deixou num estado grave de saúde, tendo-lhe sido declarada a morte cerebral no fim do ano passado.

Quem lhe era próximo descreve-a como uma rapariga extrovertida, bem-disposta e persistente. Atleta de canoagem desde pequenina, Catarina deixou de competir em 2014 quando começou a trabalhar. “É comum os atletas saírem na juventude mas voltarem mais tarde. Costumava dizer-lhe ‘mais tarde ou mais cedo vais aparecer’”, lembrava ontem José Cunha.

Como todos os amigos do Douro Canoa Clube, em Vila Nova de Gaia, o treinador contou ao i que ficou em choque ao saber, no último Natal, que a jovem não tinha resistido a uma crise de asma, doença diagnosticada em pequena mas que nunca a tinha limitado no desporto. “Houve uma altura em que a colega de tripulação dela era também asmática e chegámos a ter de ir ao centro de saúde mas com a Catarina não”.

Grávida de 12 semanas do primeiro filho, a despedida acabou por revelar sentimentos ambíguos: a equipa do Hospital S. João, para onde Catarina foi transferida e onde foi declarada a morte cerebral, um quadro irreversível, entendeu que havia condições para prolongar a gestação com a jovem em suporte artificial para permitir o nascimento do filho, decisão que teve o acordo da família materna e do pai. “Temos estado a apoiar a família dentro do que é possível em particular o irmão gémeo de Catarina que também foi nosso atleta”, explicava o treinador.

Até hoje só tinha havido um caso no país de gestação em morte cerebral. Lourenço Salvador ficou conhecido como ‘bebé-milagre’ depois de 107 dias de gestação com a mãe em suporte de vida, depois de uma hemorragia cerebral fatal.

Ontem a família de Catarina, que já fez saber que também quer chamar Salvador ao bebé, soube que o parto por cesariana tinha sido marcado para a manhã desta sexta-feira, sendo que iria despedir-se hoje da jovem, há 91 dias ligada às máquinas. “Tenho de homenagear a equipa médica por tudo e tenho de homenagear a minha filha como filha e é isso que estou a tentar fazer”, dizia ontem ao i a mãe de Catarina, antes de saber que o parto viria afinal a ser antecipado para esta madrugada.

O funeral da jovem, inicialmente marcado para a próxima semana, foi antecipado para amanhã. Para Maria de Fátima Branco este é um capítulo que precisa de fechar depois de ter chorado a morte da filha no dia 26 de dezembro. Catarina ficou inconsciente e foi socorrida por um irmão, tendo sido levada primeiro para o Hospital de Vila Nova de Gaia, de onde foi transferida para o S. João. O hospital não tem para já prestado informações sobre o caso. O processo envolve uma equipa multidisciplinar e é liderado pela médica Marina Moucho. É provável que haja um esclarecimento divulgado esta quinta-feira, na sequência do nascimento antecipado do bebé.

Quatro dezenas de casos no mundo

Há três anos, o caso de Lourenço Salvador mobilizou médicos e enfermeiros da Maternidade Alfredo da Costa e do Hospital de S. José, onde a mãe Sandra Pedro foi mantida ligada às máquinas durante quase quatro meses. O bebé viria ao mundo no dia 7 de junho de 2016, com o desenvolvimento a superar as perspetivas: nasceu rosado às 32 semanas, com 2350 gramas, mais forte do que muitos prematuros. Um momento ao mesmo tempo duro, relatou na altura a equipa. Depois do parto, foram desligadas as máquinas e o coração de Sandra deixou de bater. Lourenço viria a estar internado 29 dias, com o hospital a partilhar quase diariamente as suas conquistas. Aos 17 dias começou a conseguir agarrar a tetina do biberão e o peso foi sempre aumentando.

Gonçalo Cordeiro Ferreira, pediatra e presidente da comissão de ética do Centro Hospitalar Lisboa Central, que na altura deu luz verde à gestação, sublinha que estes são quadros raros e todos diferentes, para os quais não existem por isso muitas orientações. “Os 40 e poucos casos que existem a nível mundial  são todos diferentes uns dos outros. É preciso um grande investimento de conhecimento mas também emocional das equipas de cuidados intensivos e de obstetrícia”.

Com a mãe em morte cerebral – quando ocorre uma perda completa e irreversível das funções cerebrais – o suporte artificial de vida implica apoio respiratório mas também na manutenção de funções essenciais numa gravidez e que dependem da atividade cerebral como a regulação hormonal ou nutricional. “É preciso criar, através de medicação, um ambiente adequado para o que bebé cresça”.

Sem se pronunciar sobre o caso do S. João, Gonçalo Cordeiro Ferreira explica que perante um quadro desta natureza existe uma questão técnica e depois uma questão ética. “Só é possível discutir-se esta situação do ponto de vista ética se existe a possibilidade técnica de levar a gravidez até um momento em que seja possível fazer o parto”, diz o médico. Sendo possível, é preciso depois perceber o estado do bebé e todo o quadro envolvente. No caso de Lourenço, recorda o médico, os exames indicavam que o bebé não tinha sinais de sofrimento, não havia patologias no útero. “Tínhamos um bebé sem malformação ao que se juntava uma vontade expressa da mãe em ter aquele bebé”.

A literatura aponta para um desenvolvimento dentro da normalidade das crianças que nascem destas circunstâncias, mas mais uma vez cada caso é um caso. “O normal é uma situação muito alargada. A vida de um bebé destes nunca será completamente normal, à partida é um bebé que nasceu sem mãe, mas o seu desenvolvimento vai sempre depender de uma série de compensações que são dadas e o ser humano tem uma capacidade de resiliência e adaptação enorme”, conclui o médico.


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