O discurso de Zelensky no parlamento

O 25 de Abril, o direito à saudade e as comparações entre Lisboa e Mariupol. Assim foi o discurso de Zelensky no parlamento

Zelensky
Autor: Vítor Santos | 21 de Abril de 2022

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, discursou por videochamada na Assembleia da República. Intervenção foi marcada por referências ao 25 de Abril, pela comparação de uma Mariupol destruída a Lisboa e pelo pedido de reflexão aos portugueses porque, no mesmo cenário, “toda a população de Portugal seria obrigada a fugir”. Declarações foram recebidas com uma longa ovação em pé. Ocasião foi marcada pela ausência dos deputados do PCP.

Volodymyr Zelensky — Os principais destaques da declaração:

“Lembramo-nos todos das fotografias de Bucha, dos corpos espalhados. Os russos nem tentaram ocultá-los”.

“Estou só a descrever a região de Kiev, ainda não conseguimos contabilizar todos os mortos”.

“As tropas russas continuam a bombardear as nossas cidades, habitações e estruturas necessárias para as pessoas sobreviverem: escolas, universidades, até igrejas”.

“Os russos já capturaram e deportaram mais de 500 mil ucranianos para zonas longínquas. É o tamanho da população da cidade do Porto duas vezes”.

“Imaginem se toda a população de Portugal fosse obrigada a fugir. Não somos refugiados, fomos obrigados a sair temporariamente.”

Mariupol tem quase o mesmo tamanho de Lisboa, também fica junto ao mar, está completamente destruída. Não há uma casa intacta.”

“Quando pedimos coisas, pedimos armamento, para que consigamos expulsar os russos das nossas terras.”

“Este mal que está a ser feito à Ucrânia é tão mau como o que foi feito na Segunda Guerra Mundial. Precisamos de armamento pesado, de tanques.”

“Porque é que a Rússia começou esta guerra? É apenas o primeiro passo para conquistar o leste da Europa. Querem acabar com a democracia na Ucrânia”.

“Vocês que se preparam para celebrar o aniversário da Revolução dos Cravos, sabem o que estamos a sentir, a lutar contra uma ditadura”.

“Agradeço ao vosso Governo e a todos os portugueses por todo o apoio que nos têm dado”.

“Espero que se juntem a outros países da União Europeia para que o sistema bancário russo seja bloqueado. Não pode haver um banco russo a operar na Europa”.

“Eu sei que os nossos povos se compreendem, que se conhecem muito bem”.

“Temos de garantir que todas as pessoas têm direito à felicidade e à saudade”

Augusto Santos Silva — os principais destaques das declaração:

“Portugal condenou desde o primeiro momento com firme determinação a agressão da Federação Russa à República da Ucrânia”.

“No dia 24, todos os órgãos políticos de soberania – o Presidente da República, a Assembleia da República e o Governo – condenavam em uníssono o agressor e exprimiam solidariedade e apoio ao agredido. Fizeram-no então, e têm-no reiteradamente feito, sem qualquer hesitação nem ambiguidade. Para Portugal, o agressor é a Federação Russa e o agredido é a Ucrânia”.

“O agredido tem o direito de se defender e deve ser apoiado nessa legítima defesa”.

“Defendendo-se a si própria, a Ucrânia defende-nos a todos”.

“É uma honra para o parlamento português recebê-lo solenemente e ouvir as suas palavras. A participação do Presidente e do primeiro-ministro de Portugal nesta sessão solene mostra bem a unidade nacional em torno do apoio à Ucrânia, um apoio que junta os órgãos de soberania e que é partilhado por partidos políticos do Governo e da oposição”.

“No mesmíssimo dia 24 de fevereiro, o nosso Conselho Superior de Defesa Nacional aprovou, sob proposta do Governo e concordância do Comandante Supremo das Forças Armadas, as medidas indispensáveis para reforçar a participação militar na defesa europeia e atlântica; e os nossos embaixadores de Portugal na União Europeia e na NATO transmitiram a posição nacional de empenhamento nas medidas de sancionamento da Rússia e proteção da Ucrânia”.

“Apoiámos imediatamente a condenação expressa pelas Nações Unidas à agressão russa e estivemos no primeiro grupo de países a solicitar ao Tribunal Penal Internacional a investigação sobre os crimes de guerra”.

“Portugal é um país médio à escala europeia e pequeno à escala mundial. Não somos uma potência demográfica  económica ou militar; mas somos uma nação com história, com um posicionamento geopolítico há muito consolidado e com uma política externa que não varia com o Governo do momento, porque exprime interesses nacionais duradouros”.

“O laço mais forte é constituído pelas pessoas: Pela comunidade ucraniana estabelecida em Portugal, na ordem das dezenas de milhares de pessoas, bem integradas, que em muito contribuem para a nossa economia e em cujos filhos se encontram alguns dos melhores alunos das escolas portuguesas; e pelas famílias luso-ucranianas que, entretanto, se foram formando, e residem quer num quer noutro país”.

“Prezamos as aspirações europeias da Ucrânia e temos defendido, não só o reforço da cooperação no quadro do Acordo de Associação existente, como o exame pronto e atento, por parte das instituições europeias, do pedido de candidatura apresentado pela Ucrânia. Merecerá cuidadoso exame da nossa parte”.

“Temos muito orgulho em dispormos, desde 2019, numa praça de Lisboa, do busto do vosso poeta nacional Taras Shevchenko. E recordamos com emoção o encontro, nos anos da Grande Guerra, no Norte de Portugal, entre Sonia Delaunay, nascida Sara Stern em Gradizhsk, na Ucrânia, e então em fuga da guerra, e o nosso pintor Amadeo Souza-Cardoso – o encontro de duas figuras maiores da revolução modernista na arte europeia”.

“Posso assegurar-lhe, presidente Zelensky, que conta com Portugal. A luta do seu país pela liberdade é a luta da Europa toda pela liberdade. E a essa luta pela liberdade o Portugal democrático nunca faltou, não falta e não faltará”.

O discurso de Zelensky, vestido com um t-shirt verde tropa como tem sido hábito, mereceu longos aplausos por parte de todos os presentes na Assembleia da República. A grande surpresa nesta sessão foi a chegada tardia dos parlamentares do Chega.

As declarações de Zelensky ocorreram por iniciativa do PAN, que propôs às restantes forças políticas com assento parlamentar a formulação de um convite para participar numa sessão parlamentar na AR. A conferência de líderes aprovou por maioria a proposta, contando apenas com a oposição do PCP.

Os comunistas fizeram saber esta quarta-feira que não iam participar na sessão, por considerar que Zelensky “personifica um poder xenófobo e belicista”, classificando ainda a sessão como um “ato de instrumentalização de um órgão de soberania, orientado não para contribuir para um caminho de diálogo que promova o cessar-fogo”.

O discurso do presidente ucraniano perante a Assembleia da República decorreu na senda de uma série de intervenções que Zelensky tem vindo a fazer nas casas legislativas dos países aliados no esforço de reforçar o seu apoio, moldando os discursos às particularidades de cada estado anfitrião. Se perante os EUA, falou das tragédias em solo americano de Pearl Harbour e do 11 de setembro, a Espanha reservou referências ao bombardeamento de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola.

O discurso que faz perante Portugal acontece no mesmo dia em que assinala três anos desde que venceu as presidenciais ucranianas, conseguindo uma vitória surpresa perante Petro Poroshenko, que se estava a recandidatar e que procurou retratar o seu adversário como um novato na política. Os eleitores viram isso como um trunfo, já que Zelensky foi eleito por uma larga margem, com 73,2% dos votos.

Apesar desta ser uma sessão solene mais sóbria — contando com menos convidados e não tendo honras militares —, ainda assim respeitou-se o cerimonial. As bandeiras da Ucrânia e da Assembleia da República foram içadas na varanda do Palácio de S. Bento pelas 16:15, a mesma hora em que foi colocada no exterior do parlamento a guarda ao Palácio de São Bento, constituída por um pelotão da Guarda Nacional Republicana.

Seguiram-se as chegadas escalonadas do primeiro-ministro, António Costa, recebido no exterior pelo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aguardado pelos dois.

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