O erro de Vladimir Putin

Rússia vai ter de enfrentar novos desafios numa dependência face à China, numa relação de vassalagem que lhe vai custar muito a engolir

O erro de Putin
Autor: MTV Redação | 2 de Março de 2022

O erro de Putin chama-se Alemanha. A sua estratégia estava bem gizada. Aproveitar o momento de fraqueza e de divisão dos europeus, o enfoque americano na confrontação com a China, o facto de ser Inverno e o gás russo ser tão necessário e a falta de coragem ocidental em correr riscos confrontacionais com quem fale grosso e tenha armas nucleares.

A ideia era entrar pela Ucrânia adentro, assegurar a independência das republicas a leste e criar um corredor até à Crimeia, e pelo caminho trocar o governo ucraniano por outro mais suave, ou criar tanta destruição que depois os europeus andassem anos a pagar a reconstrução do novo aliado.

O que Putin não contou foi com a inépcia dos seus comandantes militares, que demoraram a ajustar a estratégia à maior resistência ucraniana. Assim, aquilo que deveria ser uma “operação militar especial” corre o risco de se tornar numa guerra de atrito, onde os russos assegurarão garantidamente a supremacia visto o seu superior poderio bélico, mas com custos muito pesados. Muito à semelhança do que lhes sucedeu no Afeganistão, e no início da guerra na Chechénia. Esta situação, transmitida todos os dias em directo nas TVs, com o presidente ucraniano (que tem tomates, diga-se) a apelar à ajuda internacional, criou uma onda de apoio nas opiniões públicas mundiais, e forçou as lideranças ocidentais a terem de agir.

Onde essa mudança de posição mais estragos fez na estratégia de Putin, foi na Alemanha. Putin nunca terá acreditado que os alemães aceitassem agir saindo da sua posição de recato militar, e que dependentes do gás russo, aceitassem criar dano na sua economia, ao mesmo tempo que passassem a ser eles o motor de união e acção contra a Rússia, para mais com um governo de coligação recém eleito. Mas foi isso que aconteceu. E a mudança alemã é dramática. Não só já anunciaram 100.000 milhões de euros para este ano (quase tanto como o Orçamento de Estado português para 2022 no seu total), como anunciaram que vão passar a investir 2% do seu PIB nas forças militares. Não bastando, a recusa do Nord Stream 2 é muito relevante e é um tiro na economia russa.

Esta mudança da posição alemã, que reverte a política seguida por Merkel nos últimos 16 anos, é de um significado brutal. E isto fez com que a oposição à Rússia passasse a ser liderada pela Europa ocidental, e em particular, pela vontade da sua população que condena em massa esta guerra. Isto permite aos americanos ficarem na sombra (facultando informações e apoiando a coordenação dos militares ucranianos sem darem a cara), o que por seu lado permite à China demarcar-se dos russos.

Mesmo que Putin consiga salvar a face, a sua vitória já será de Pirro. Tudo o que a Rússia procurou, e conseguiu construir, nos últimos 30 anos (desunião europeia, dependência energética alemã, perda de status dos americanos, desunião da NATO, aproximação da Turquia à Rússia, influência no médio oriente. complacência com a oligarquia russa e abertura de portas aos negócios com as suas empresas) ruiu numa semana.

A economia russa, pouco maior que a espanhola, vai sofrer muito e vai demorar muito a recuperar. A Europa reuniu-se e a NATO recuperou a sua razão de existir. Se a ocidente não havia razões para preocupação, agora vai passar a haver. E a Russia vai ter de enfrentar novos desafios numa dependência face à China, numa relação de vassalagem que lhe vai custar muito a engolir.

Opinião de João de Barros

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