Rússia: mais de 6.500 manifestantes presos

Movimento de protesto na Rússia ganha expressão nas ruas e nas redes sociais; mais de 6.500 manifestantes presos

Protestos na Russia
Autor: Horta e Costa | 2 de Março de 2022

Milhares de russos têm saído para as ruas em protestos contra a invasão da Ucrânia, com mais de 6.500 manifestantes presos pelas autoridades policiais da Rússia até à passada terça-feira, segundo revelou o grupo de direitos humanos OVD-Info, que faz a monitorização de prisões políticas.

Apesar da repressão das autoridades russas, a oposição à guerra de Moscovo na Ucrânia está a ganhar apoio – enquanto alguns continuam a manifestar-se publicamente, outros estão a montar bases de retaguarda na Internet e a contornar as restrições usando redes sociais, mensagens criptografadas e servidores VPN.

O medo da repressão fez com que apenas uma minoria de russos expressasse publicamente a sua oposição à invasão. No entanto, o movimento antiguerra está a ganhar apoio na Internet, principalmente através redes sociais e serviços de mensagens criptografadas, como Telegram e Signal. No Twitter, a hashtag #ЯпротивВойны (‘Sou contra a guerra’) esteve em destaque na Rússia ao longo de terça-feira.

A maior parte da oposição parece estar a fomentar-se atrás dos écrans, já que, sob Vladimir Putin, a oposição à guerra nas ruas encerra o risco de prisão e condenação. Em declarações à ‘France 24’, a organização não governamental que rastreia o número de pessoas presas em comícios antiguerra – quase uma semana após o início da invasão russa, os números já são expressivos.

“Nunca vimos um número tão grande de detidos por dia”, disse Grigory Durnovo, analista do grupo. “Contamos pelo menos 6.489 detidos em cinco dias. Isso é o suficiente para nos mostrar o número de pessoas dispostas a sair às ruas e expressar as suas opiniões”, frisou.

Embora as prisões não tenham impedido milhares de russos de desafiar a lei para expressar a sua oposição à guerra, a grande maioria prefere manter a discrição. Durnovo atribuiu isso a uma onda de repressão vista em 2021, notadamente com o fecho do celebrado grupo de direitos humanos Memorial, bem como o processo criminal de pessoas que participaram de protestos no início deste ano.

Mas os manifestantes ainda encontram maneiras de expressar a sua oposição à guerra enquanto permanecem fora do radar. “Os contactos entre os manifestantes são principalmente no Twitter e no Telegram”, reforçou Stanislav, que os retrata como redes de solidariedade. Os membros desses grupos compartilham informações da media independente (incluindo o canal de TV online Dojd), retransmitem petições e apoiam manifestantes presos pela polícia.

“Vamos ajudá-los a pagar multas e também encontramos advogados para os ajudar”, disse. De acordo com o site OVD-Info, dependendo das acusações, os manifestantes correm o risco de serem multados de entre “17 e mais de 2.500 euros e arriscam até 30 dias de detenção”.

Várias petições e cartas abertas circulam na Internet desde o início da invasão, incluindo uma de advogados russos citando violações russas da Carta da ONU. Também cientistas russos postaram um vídeo no YouTube expressando a sua oposição à guerra. A mais significativa dessas iniciativas continua a ser uma petição do ‘Change.org’ intitulada ‘Stop the War with Ukraine’: lançado por Lev Ponomarev, ativista político russo comprometido com a defesa dos direitos humanos, o texto convoca os cidadãos russos a resistir à guerra – ultrapassou o milhão de assinaturas na terça-feira.

Segundo Ponomarev, se um milhão de assinaturas forem recolhidas, isso significa que dezenas de milhões de pessoas se opõem à guerra contra a Ucrânia, dada a dificuldade que muitos russos têm para se ligar à Internet.

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