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Série da RTP incomoda Governo

Publicado em 30 de Abril de 2018 16:27

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. E esse facto – ou a memória dessa realidade – têm dado muitas dores de cabeça… [ ]


Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. E esse facto – ou a memória dessa realidade – têm dado muitas dores de cabeça ao Governo


Parece uma teoria da conspiração – e, de facto, até se chama assim. A RTP encomendou uma série sobre política, corrupção e banca, passada em Portugal. Os episódios estão filmados mas a pós-produção vai atrasando. O Governo nega qualquer interferência. Mas nos bastidores correm muitas suspeitas.

A série televisiva Teorias da Conspiração já está integralmente gravada, mas o período de pós-produção vem-se arrastando desde o início do ano. A sua ida para o ar na RTP estava agendada para antes do verão deste ano – e na peça ao lado é dada uma justificação para o adiamento – mas nos bastidores – entre aqueles que contracenaram o projeto, por exemplo – contam-se receios do teor do argumento causar anticorpos junto do mundo político.

Teorias da Conspiração é assumidamente inspirada em «casos» reais portugueses, tratando-se de uma intriga que relaciona a política com a corrupção, o setor bancário e o jornalismo. Soa, verdadeiramente, familiar.

Num tempo em que um ex-ministro da Economia (Manuel Pinho) é exposto como recetor de elevadas quantias de um banqueiro (Ricardo Salgado) hoje acusado de corrupção, tendo esse banqueiro ligações igualmente expostas a um ex-primeiro-ministro (José Sócrates), o guião de Teorias da Conspiração mostra-se atual.

E quem contribuiu para a feitura da série – realizada por Manuel Pureza, familiar do deputado bloquista José Manuel Pureza – não só estranha a demora na ida para o ar do projeto como associa essa demora a um desconforto gerado junto do partido atualmente de volta ao governo – o PS – em vésperas de ano eleitoral.

O SOL confrontou socialistas com a situação e aqueles que tinham conhecimento de Teorias da Conspiração preferiram distanciar-se da controvérsia. «Não há dúvida que é provocatório porque ainda é tudo muito recente. Há menos de dez anos ele [Sócrates] era primeiro-ministro. Eu sei que às vezes parece que foi há muito tempo, mas não foi: foi ‘ontem’. Há muitos acusados mas ainda ninguém foi acusado», aponta uma parlamentar. «É chato, é. Mas acha que vamos fazer o quê? Censurar telenovelas que falem em políticos e investigações policiais? Tenha dó», suspira fonte próxima do atual Governo, ao SOL.

Contactado por este semanário, o gabinete do ministro da Cultura, Castro Mendes, que detém a tutela da Comunicação Social, escusou-se a comentar, remetendo para os estatutos da RTP («A responsabilidade pela seleção e pelos conteúdos dos diferentes serviços de programas da sociedade, pertencem aos respetivos diretores») e, «em respeito pelos princípios da autonomia editorial e de programação», afirma que não lhe cabe «o pronunciamento sobre conteúdos difundidos ou a difundir pelo serviço público de rádio e televisão».

A produtora a quem a série foi encomendada, a Stopline, remete igualmente para a RTP («A questao da exibição das séries é gerida exclusivamente pela estação de televisão»), na medida em que «as questões de exibição não são da responsabilidade da Stopline». A produtora refere que a série «não está completa», porque, como já referido, há episódios ainda em pós-produção – sendo o atraso nesse processo que despontou as preocupações também já referidas. No episódio a cujo guião o SOL teve acesso, o primeiro-ministro ficcionado é meramente referido como «o primeiro» – como aliás Armando Vara é diversas ouvido referir-se a Sócrates em escutas divulgadas na imprensa portuguesa, nomeadamente neste semanário.

“Caberá a quem estiver na administração na altura”

O administrador de saída, que tinha o pelouro dos conteúdos, remete o atraso na série para os custos da Eurovisão.

Nuno Artur Silva, administrador de saída da RTP com o pelouro dos conteúdos que esteve encarregue do processo relacionado com a série, nega ao SOL qualquer tipo de pressão política («até porque, a haver pressão política, ela teria sido feita a mim, e não foi», ri, ao telefone) e justifica o adiamento da ida para o ar de Teorias da Conspiração com opções de gestão orçamental a que o Festival do Eurovisão obrigou o canal público.

Nuno Artur Silva nega que o atraso relatado tenha que ver com a mudança na direção de programas da RTP («Não é por esse motivo»), dizendo: «A série estava prevista estrear antes, mas com o Festival da Eurovisão – nós ganhámos o Festival –, por causa de questões orçamentais, tivemos que fazer uma reorganização das estreias previstas». E é nesse sentido que Teorias da Conspiração terá passado para a rentrée, isto é, depois do verão, em setembro deste ano.

Nuno Artur afirma que «esta foi uma decisão face ao orçamento de 2018 e a essa obrigação de reorganização das séries», não sendo Teorias da Conspiração a única a ser adiada – já que há outra na mesma circunstância. Nesse contexto, recorda, «a direção de programas propôs esta sequência e a administração achou bem, tratando-se de um constrangimento orçamental», salientou ao SOL.

Com um estratégia de oito séries por ano, encomendadas a produtores diferentes e autores diferentes, haverá sempre «percalços, atrasos, problemas, e as coisas vão sendo alteradas». E o peso orçamental do Eurovisão em 2018 pode fazer falhar o objetivo das oito séries anuais por isso mesmo, sendo as séries «levadas a custo no momento em que estreiam». Dentro dessa flexibilidade necessária, «passou-se a estreia da ‘Teorias de Conspiração’ de antes do verão para depois do verão» – afinal, bem em cima do eleitoralmente preenchido ano de 2019.

«Em bom rigor, é isso [estreia em setembro] que está previsto. Mas, como sabe, os programas são flexíveis, portanto não lhe posso dizer mais do que isso. A verdade é que nem eu nem o Daniel [então diretor de programas do canal] estaremos cá na altura…», lembra Nuno Artur Silva, recentemente de saída dos quadros da RTP.

«Caberá à administração e à direção de programas dessa altura decidir o que fazer e quando fazer», destaca.

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