Tráfico afeta imagem das Forças Armadas?

Operação Miríade: PSD e PCP alertam que caso tem impacto na imagem das Forças Armadas com PS a defender que o caso não mancha o prestígio

Forças armadas
Autor: Vítor Santos | 9 de Novembro de 2021

PSD e PCP defenderam hoje que as suspeitas de tráfico por militares portugueses na República Centro-Africana têm impacto na imagem das Forças Armadas, com PS a defender que o caso não mancha o prestígio reconhecido às missões internacionais.

Na reunião da comissão parlamentar de Defesa Nacional, que debateu o relatório do envolvimento dos contingentes militares portugueses no estrangeiro relativo ao primeiro semestre de 2021, a deputada do PSD Ana Miguel dos Santos considerou que as FA são “uma ferramenta importante como instrumento de política externa, porque são a face visível do país no estrangeiro”.

Relativamente às suspeitas que vieram a público sobre o envolvimento de militares portugueses em tráfico de diamantes, ouro e estupefacientes, a social-democrata diz querer acreditar que esta foi uma situação única e circunscrita, mas apontou que o caso “tem um impacto internacional significativo”, admitindo que a imagem de prestígio das Forças Armadas pode ter ficado, de alguma forma, beliscada.

A deputada considerou ainda importante que o ministro da Defesa Nacional esclareça que mais foi feito para além da denúncia às autoridades competentes e à ONU e como pode garantir que situações semelhantes não se voltem a repetir, “para não ficar a ideia de que nas FA existe um vazio de fiscalização”.

Já o deputado António Filipe, do PCP, considerou que “não é possível dizer com seriedade” que esta situação “não afeta a imagem das FA”.

Na opinião do deputado, uma coisa é dizer que é uma situação excecional, ou até mesmo que foram feitas as denúncias adequadas, outra é afirmar que não afeta esta imagem, uma vez que estão em causa “suspeitas muito graves”.

O comunista considerou que “mau serviço ao país e às Forças Armadas é procurar estar a desvalorizar algo que aconteceu, porque estão em causa casos da maior gravidade”.

Pelo PS, o deputado Diogo Leão considerou que o relatório em causa “mostra bem como Portugal, através da participação das suas Forças Armadas contribui ativa e significativamente para a paz e segurança internacionais”.

Na opinião do socialista, não são “quaisquer casos excecionais, totalmente anormais como o que veio a público ontem [segunda-feira]” – que para Diogo Leão devem ser investigados “até às últimas consequências” – que vão “de todo manchar o enorme prestígio das FA nas várias missões em que participa”.

O deputado destacou ainda a “irrepreensível atividade cívica” de todas as entidades envolvidas na denúncia destas suspeitas, desde o comandante da 6ª Força Nacional Destacada até ao ministro da Defesa Nacional.

O deputado João Vasconcelos (BE) defendeu que devem ser apuradas “todas as responsabilidades até ao fim”, aproveitando para criticar a participação do país em algumas destas missões, nomeadamente na RCA.

Já no final do debate, o presidente da comissão, o deputado Marcos Perestrello, considerou que esta matéria tem “profundos impactos na imagem das FA e na imagem externa do país” mas pediu “apreciações cautelosas” sobre o caso.

A Polícia Judiciária (PJ) confirmou em 08 de novembro a execução de 100 mandados de busca e 10 detenções, incluindo de militares e ex-militares, no âmbito da Operação Miríade, na sequência de um inquérito dirigido pelo Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa.

Em causa está a investigação a uma rede criminosa com ligações internacionais e que “se dedica a obter proveitos ilícitos através de contrabando de diamantes e ouro, tráfico de estupefacientes, contrafação e passagem de moeda falsa, acessos ilegítimos e burlas informáticas”.

Em comunicado, o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) revelou que alguns militares e portugueses em missões na República Centro-Africana podem ter sido utilizados como “correios” no tráfego de diamantes, adiantando que o caso foi reportado em dezembro de 2019.

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