Ucrânia: O polémico gasoduto Nord Stream 2

Alemanha tomou hoje medidas para interromper o processo de certificação do gasoduto Nord Stream 2, para distribuição de gás natural russo na Europa

russia vs ucrania
Autor: Vítor Santos | 22 de Fevereiro de 2022

O executivo alemão está a tomar medidas para responder às ações de Moscovo na Ucrânia e, conforme explicou o chanceler alemão, Olaf Scholz, aos jornalistas “sem aquela certificação, o Nord Stream 2 não pode ser colocado em funcionamento”.

A União Europeia (UE) depende fortemente das importações de gás natural, que é o segundo combustível mais utilizado nos 27 Estados-membros, a seguir ao petróleo e derivados, sendo a Rússia o maior exportador.

Eis alguns pontos essenciais sobre o gasoduto:

O que é o Nord Stream 2?

O gasoduto que liga a Alemanha à Rússia, concluído em setembro do ano passado, tem uma capacidade de transporte de 55 mil milhões de metros cúbicos de gás anualmente, uma extensão de 1.230 quilómetros sob o Mar Báltico, estabelecendo a mesma rota que o Nord Stream 1, a operar desde 2012.

O projeto, detido pela empresa estatal russa de energia Gazprom e financiado por várias empresas de energia, estava projetado para arrancar em 2011 e o funcionamento em 2012, mas só saiu do papel 10 anos depois, devido às ameaças de sanções norte-americanas e às tensões geopolíticas.

O projeto teve um custo total de 9.500 milhões de euros e deveria duplicar a capacidade de exportação de gás da Rússia para a Alemanha.

O gasoduto da discórdia

Para os Estados Unidos e detratores europeus do projeto, o gasoduto vai fazer aumentar de forma duradoura a dependência energética europeia em relação à Rússia.

Angela Merkel e o Presidente russo, Vladimir Putin, insistiram ao longo dos últimos anos que o Nord Stream era um projeto puramente comercial, sem qualquer caráter político.

Nos últimos anos, o projeto foi criticado por Washington, assim como pela Ucrânia, que vê a posição geopolítica fragilizada com o funcionamento do gasoduto entre a Rússia e a Alemanha.

A posição dos Estados Unidos mudou com a administração do Presidente Joe Biden, que alcançou um compromisso entre Washington e Berlim sobre o assunto.

Para a Ucrânia, o gasoduto pode vir a privar Kiev de, pelo menos, 1,5 mil milhões de dólares anuais que recebe pelo trânsito de gás russo através de território ucraniano e que se destina ao bloco europeu.

Em agosto, a chanceler alemã disse na Ucrânia que Berlim iria “fazer tudo” para prorrogar o contrato de trânsito russo-ucraniano que formalmente expira em 2024.

Na mesma altura, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pediu a Merkel para considerar o Nord Stream 2 como uma “arma geopolítica perigosa”.

Gás russo e a crise energética

Vários especialistas e agentes políticos ocidentais têm defendido que a Rússia agravou propositadamente a escassez de energia na UE, como forma de pressionar a Alemanha a aprovar o funcionamento do gasoduto Nord Stream 2.

O Nord Stream 2 poderia aliviar os problemas de escassez de gás natural com que a Europa se tem visto a braços, com o aumento da procura por aquela matéria-prima nos mercados asiáticos e consequente escalada dos preços.

A certificação alemã

O processo de certificação da empresa Nord Stream 2 AG como operador de transporte de gás é um requisito alemão que estava ainda por cumprir, apesar de o gasoduto ter entrado em fase de testes de segurança, em outubro.

Com a suspensão do processo, a entrada em funcionamento do gasoduto será adiada.

Na conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro irlandês, o chanceler Scholz disse que o assunto vai ser “reexaminado” pelo Governo alemão.

Uma coisa é certa: sem o Nord Stream 2, a Europa terá de encontrar outras fontes de importação de gás, para fazer face à escassez.

Como afeta Portugal

Não afeta de forma direta, uma vez que Portugal importa pouco gás russo, que é transportado por navio até ao Porto de Sines.

Por via marítima, Portugal recebe também gás da Nigéria, Estados Unidos da América, entre outros, e, por via terrestre, através dos gasodutos com Espanha, que recebem gás de África.

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